Qual a relação entre transtorno do jogo e saúde mental?
Reconhecido pela Classificação Internacional de Doenças (CID), o transtorno do jogo é caracterizado por um padrão persistente e recorrente de comportamento de jogo que continua mesmo diante de prejuízos financeiros, familiares, sociais e emocionais.
Assim como ocorre nas dependências químicas, o transtorno do jogo envolve alterações nos circuitos cerebrais de recompensa. A ativação excessiva do sistema dopaminérgico gera sensação de prazer e reforça a repetição do comportamento, enquanto regiões associadas ao controle de impulsos e à tomada de decisões, como o córtex pré-frontal, apresentam funcionamento comprometido.
Aliás, é comum observar pacientes que utilizam as apostas como estratégia de regulação emocional. Ou seja, o jogo passa a funcionar como uma tentativa de aliviar sofrimento psíquico, estresse ou sentimentos negativos, criando um ciclo de dependência cada vez mais difícil de interromper.
Ansiedade e depressão: fatores de risco e consequências
A associação entre transtorno do jogo, ansiedade e depressão é bem documentada. Um estudo recente publicado na Addictive Behaviors (“Understanding the links between anxiety, depression, and sports betting”) avaliou 915 apostadores esportivos e identificou que sintomas de ansiedade e depressão estavam fortemente relacionados à maior gravidade dos problemas com jogos.
Os pesquisadores observaram que os motivos de enfrentamento (coping motives) desempenham um papel crucial nessa relação. Dito de outra maneira, indivíduos com ansiedade ou depressão tendem a apostar para tentar reduzir emoções negativas, aliviar preocupações ou escapar temporariamente do sofrimento psicológico. Isso aumenta significativamente o risco de evolução para o transtorno do jogo.
O estudo também demonstrou que ansiedade e depressão frequentemente coexistem entre apostadores problemáticos, reforçando a necessidade de rastreamento sistemático dessas condições durante a avaliação psiquiátrica.
➡︎ Confira também 4 fatores que têm impactado a saúde mental dos brasileiros
TDAH e impulsividade
O Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é outra condição frequentemente observada em pacientes com transtorno do jogo. A impulsividade característica do TDAH favorece comportamentos de busca imediata por recompensa e dificulta o controle de impulsos relacionados às apostas.
Além disso, pessoas com TDAH tendem a apresentar maior vulnerabilidade a transtornos do controle do impulso e outras formas de dependência comportamental. A facilidade de acesso às plataformas digitais e a velocidade das apostas ao vivo potencializam ainda mais esse risco.
Do ponto de vista neurobiológico, tanto o TDAH quanto o transtorno do jogo compartilham alterações em circuitos relacionados à recompensa, autocontrole e tomada de decisões, o que explica a elevada taxa de comorbidade observada nos serviços especializados.
➡︎ Leia nosso artigo “TDAH em adultos: como evitar erros de diagnóstico?”
Sinais que merecem atenção
O diagnóstico precoce do transtorno do jogo é indispensável para evitar o avanço do quadro. Alguns sinais de alerta incluem:
- Necessidade de apostar valores cada vez maiores para obter excitação;
- Tentativas fracassadas de reduzir ou interromper o jogo;
- Irritabilidade ou inquietação durante períodos de abstinência;
- Busca constante por recuperar perdas financeiras;
- Mentiras para ocultar o envolvimento com apostas;
- Prejuízo ocupacional, familiar ou social relacionado ao comportamento de jogo.
Muitos pacientes também apresentam insônia, sintomas ansiosos intensos, episódios depressivos e dificuldades financeiras progressivas, frequentemente acompanhadas de sentimentos de culpa e vergonha.
Implicações para o tratamento
O transtorno do jogo exige um tratamento integrado. Afinal, tratar apenas o comportamento de aposta pode ser insuficiente quando existem transtornos psiquiátricos associados.
A avaliação deve incluir rastreamento para ansiedade, depressão, TDAH, transtornos por uso de substâncias e outras alterações do controle de impulsos.
Intervenções baseadas na terapia cognitivo-comportamental, entrevista motivacional e grupos de apoio apresentam resultados consistentes. Em casos específicos, o tratamento farmacológico das comorbidades pode contribuir para a redução da urgência em apostar.
É médico e deseja aprimorar o seu diagnóstico? Assista gratuitamente o webinar “Ondas cerebrais: EEG aplicado no foco, humor e aprendizado”!



