Mulher vestida de branco está pensativa com as mãos no rosto, representando a relação entre menopausa e Alzheimer

Menopausa causa alterações cerebrais semelhantes ao Alzheimer 

Áreas do cérebro afetadas durante a menopausa 

Cientistas da Universidade de Cambridge apresentaram recentemente descobertas que podem mudar nossa compreensão sobre a saúde cerebral feminina e sua relação com a doença de Alzheimer. Um estudo publicado na revista Psychological Medicine analisou dados de aproximadamente 125 mil mulheres, sendo que 11 mil participantes realizaram ressonância magnética cerebral. Os resultados indicaram perdas significativas de massa cinzenta em regiões neurológicas frequentemente comprometidas pelo Alzheimer

Logo, as áreas cerebrais mais afetadas incluem: 

  • O hipocampo, responsável pela consolidação de memórias;
  • O córtex entorrinal, que funciona como via de comunicação para processos mnemônicos; 
  • O córtex cingulado anterior, essencial para tomada de decisões e regulação emocional.  

Essas mesmas estruturas demonstram degeneração característica em pacientes com doença de Alzheimer, sugerindo que a menopausa pode estabelecer condições neurobiológicas que precedem processos demenciais. 

Impactos na saúde mental e função cognitiva 

Além das alterações estruturais, a pesquisa documentou aumento expressivo nos índices de ansiedade e depressão entre mulheres no período pós-menopausa. Os distúrbios do sono mostraram-se prevalentes, com relatos de insônia e redução nas horas totais de repouso. Aliás, tais fatores já configuram risco adicional para posterior desenvolvimento de declínio cognitivo. 

Observou-se também comprometimento na velocidade de processamento cerebral, manifestado pelo aumento do tempo de reação a estímulos externos. Curiosamente, não foram identificadas diferenças significativas em testes de memória entre os grupos analisados, sugerindo que os déficits cognitivos podem manifestar-se de forma sutil inicialmente, tornando-se mais evidentes apenas com o passar do tempo. 

Terapia hormonal: nova perspectiva após mudança do FDA 

A avaliação da terapia de reposição hormonal (TRH) na pesquisa revelou resultados que ganham novo significado após a recente decisão do FDA de remover a tarja preta desses medicamentos. Tal mudança regulatória, fundamentada em evidências acumuladas nas últimas duas décadas, reconhece que os riscos foram superestimados quando generalizados inadequadamente a partir de estudos anteriores

Na pesquisa de Cambridge, a TRH demonstrou benefícios específicos ao desacelerar o declínio da velocidade de reação cognitiva. Contudo, não preveniu a perda de massa cinzenta nem mitigou completamente os sintomas relacionados à saúde mental. Mulheres em uso da terapia reportaram níveis elevados de fadiga, mesmo mantendo padrões de sono semelhantes ao grupo sem intervenção hormonal. 

Os achados reforçam que a eficácia e segurança da TRH dependem criticamente do momento de início. Isto é, preferencialmente durante a transição menopausal ou nos primeiros anos após a menopausa, quando mulheres têm menos de 60 anos. Dessa maneira, a terapia pode oferecer proteção vascular e óssea sem aumentar riscos cardiovasculares significativos

Por que mulheres apresentam maior risco de Alzheimer? 

Conforme destacado pela pesquisadora Barbara Sahakian, essas descobertas podem elucidar parcialmente o fato de mulheres desenvolverem demência em proporção quase duplicada comparada aos homens. A menopausa pode representar um período de vulnerabilidade neurológica aumentada, em que flutuações hormonais favorecem processos neurodegenerativos futuros. 

Embora o mecanismo exato ainda demande investigação longitudinal, as evidências atuais justificam atenção clínica diferenciada durante essa fase da vida. A compreensão de que hormônios sexuais exercem efeitos neuroprotetores diretos sugere que sua depleção abrupta pode desencadear cascatas moleculares deletérias ao tecido cerebral. 

Abordagem clínica integrada e personalizada 

A avaliação das pacientes precisa ser individualizada, considerando perfil de risco cardiovascular, histórico familiar e manifestações clínicas específicas.  

Independentemente da intervenção hormonal, modificações no estilo de vida permanecem fundamentais. Só para ilustrar, nutrição anti-inflamatóriaexercícios físicos regulares (principalmente treino aeróbico e de força) e estimulação cognitiva contínua constituem pilares para a preservação da saúde cerebral durante a menopausa. 

Ademais, eliminar o estigma e encorajar o diálogo sobre sintomas constitui passo fundamental para o cuidado adequado, permitindo intervenções precoces que podem modificar trajetórias de declínio cognitivo. 

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